Foto: Pedro França/Arquivo/Agência Senado
A inteligência artificial por facilitar ainda mais a produção de Fake News 05 de dezembro de 2023 | 09:00
A era da IA e das Fake News cada vez mais sofisticadas, por Guilherme Reis*
Na semana passada, o jornal O Estado de S.Paulo publicou uma reportagem sobre algo que já prevíamos: as campanhas eleitorais do ano que vem no Brasil vão abusar da chamada Inteligência Artificial (IA) em suas peças publicitárias. Até aí, tudo bem: afinal, todo avanço tecnológico que sirva para aprimorar nosso trabalho é bem-vindo. O problema é o provável uso dessas ferramentas para produzir Fake News ainda mais sofisticadas do que as que circulam hoje.
A recente campanha presidencial na Argentina talvez seja o primeiro caso de IA utilizada para fins político-eleitorais, seja de maneira oficial, seja de maneira obscura e praticamente irrastreável no submundo digital das Fake News. Um exemplo desse último aspecto foi um vídeo falso em que o candidato derrotado, Sergio Massa, apareceu cheirando cocaína. Embora fraudes do tipo, conhecidas como deepfakes, não sejam novidade, o problema é que agora ficou muito mais fácil, rápido e barato produzi-las.
Antes de seguirmos com esses breves apontamentos, é preciso dizer que, ao contrário do que acreditam a maioria dos nossos políticos, as Fake News são um fenômeno recente. Elas são um produto da cultura digital, e se tornaram viáveis principalmente por causa das redes sociais, do Youtube (e seus algoritmos enviesados) e dos aplicativos de mensagens. Boatos e mentiras disseminados para difamar adversários de fato não são nada novos na história, mas as Fake News vão muito além disso. Em linhas gerais, são textos/imagens/vídeos/áudios fabricados e distribuídos na Internet com o objetivo de enganar os leitores e induzi-los ao erro. Impulsionadas por algoritmos e bots, sempre carregam motivações financeiras e/ou ideológicas.
O rigor conceitual é imprescindível, pois em uma era de tanta informação (e desinformação) e ataques deliberados à liberdade de expressão e de imprensa, temos de saber do que estamos falando. Nos últimos anos, por exemplo, tornou-se comum vermos representantes eleitos e autoridades governamentais, de perfis ideológicos os mais distintos, classificarem como Fake News reportagens da imprensa, declarações e análises de especialistas, jornalistas e adversários. Atitudes no mínimo irresponsáveis, para não dizer de má-fé. No dia em que opiniões contrárias a algum poderoso forem colocadas no mesmo patamar do vídeo falso de Massa, teremos certeza da profundidade da vala na qual estamos nos atirando.
Se a Justiça Eleitoral está realmente preocupada com isso, conforme a reportagem do Estadão, é sinal de algum progresso, considerando a leniência com que o problema foi tratado nas eleições de 2018. No entanto, pressionar de forma pontual as plataformas (Google, Meta, Telegram, etc..) não é suficiente, bem como as dezenas de leis que estados sancionaram para criminalizar a produção e o compartilhamento de conteúdo falso na pandemia — todas inócuas. É necessário pensar a longo prazo e regulá-las o quanto antes, e, aproveitando o ensejo, estabelecer regras para o uso da IA. Não apenas para debelar Fake News sobre eleições ou terraplanismo, mas também para combater uma infinidade de violências cometidas ou estimuladas nos ambientes digitais. Mas isso só será possível mediante compromisso firme de todo o Poder Público e da sociedade.
*Guilherme Reis é jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Ufba. Pesquisa Fake News e desinformação. Tem artigo publicado em revistas científicas e é coautor do livro “Prosa e Verso” (Uefs editora). Email: [email protected]
Fonte: Site Política Livre


