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20ª Caminhada da Liberdade destaca importância dos blocos afro em 50 anos de luta antirracista no Brasil e na Bahia 14 de novembro de 2023 | 10:38
20ª Caminhada da Liberdade destaca importância dos blocos afro em 50 anos de luta antirracista no Brasil e na Bahia
Em 2024, o Ilê Aiyê completa 50 anos de existência. Uma história que não se resume a um bloco, mas a um movimento que ecoou pela Bahia e pelo Brasil de promoção da cultura, identidade e autoestima do povo negro. No próximo dia 20, a tradicional Caminhada da Liberdade encherá as ruas do Curuzu ao Pelourinho com música, palavras de ordem e o tema “50 Anos de Blocos Afro no Brasil – A luta contra o Racismo antes e depois do Ilê Aiyê”. O objetivo, segundo o presidente do Fórum de Entidades Negras da Bahia (Feneba), Raimundo Bujão, é fortalecer o Dia da Consciência Negra e dizer à sociedade que a luta antirracista seria muito mais desafiadora, se não fossem os blocos afro.
“Com todas as dificuldades que passamos desde a escravidão, se não fossem os blocos afro, estaríamos mais atrasados. As vidas negras na sociedade ainda não têm a mesma importância que a de uma pessoa branca. Nas ruas vemos de forma grotesca a abordagem dos policiais às pessoas de pele negra, e isso não comove a sociedade. O sistema dominante, além de nos escravizar, impôs no imaginário dos descendentes de africanos a ideia de que vivíamos em um país racialmente democrático, onde todas as pessoas gozavam dos mesmos direitos, uma verdadeira mentira institucional”, afirma o ativista.
A Caminhada da Liberdade é uma das maiores celebrações do País; em 2015 homenageou o presidente Lula, e completa a vigésima edição em 2023 em busca de reparações, inclusão na sociedade e criação e melhoria das políticas públicas para a população negra, explica o presidente da entidade. Um marco na luta antirracista na Bahia, atesta Antônio Carlos dos Santos (Vovô), fundador do Ilê juntamente com Apolônio de Jesus. E facilmente reconhecível pela participação popular, presença de músicos percussionistas, estudantes, pessoas de outros estados e até do exterior.
“Nós fazemos parte do Fórum de Entidades Negras e criamos essa Caminhada, a maior da Bahia pela força dos blocos (Ilê Aiyê, Muzenza, Malê Debalê, Cortejo Afro, Os Negões, Ókánbí) em celebrar o Dia da Consciência Negra e dedicado a Zumbi dos Palmares. Sobre o tema deste ano, ’50 Anos de Blocos Afro no Brasil – A luta contra o Racismo antes e depois do Ilê Aiyê’, não podemos dizer que estamos satisfeitos com a situação. O negro nunca se conformou. Quando o Ilê surgiu, foi uma black atitude, através das músicas que contavam as histórias, as grandes revoluções, porque a África era ensinada como uma coisa só. A música dos blocos afro resgatou o orgulho de ser negro, a cor da pele, o cabelo, a coragem de mudar e de não só usar roupas discretas. A Caminhada fortaleceu esse movimento e fez surgir outras caminhadas na Bahia”, comenta Vovô.
O presidente do Muzenza, Jorge Santos, concorda: “É inegável a contribuição dos blocos afro para a expansão e preservação da cultura africana no Brasil. Até porque suas ações vão além do que é apresentado no Carnaval. No combate ao racismo, desde a sua criação, passaram a ser um instrumento de fundamental importância, por causa das ações de autoafirmação, dos valores e raízes africanas”.
Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, o 20 de Novembro foi instituído pela Lei 12.519/2011 no governo da presidenta Dilma Rousseff. É feriado nos estados de São Paulo, Alagoas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro, apenas. Segundo Raimundo Bujão, a 20ª Caminhada da Liberdade vai chamar atenção para o fato. “Já passou do tempo de termos feriado nacional decretado no 20 de Novembro. O Brasil reúne a maior população fora da África. O dia 15 de janeiro, aniversário de Martin Luther King, é feriado nacional nos Estados Unidos. Como não termos um dia no Brasil para nos encontrarmos com nossa história?”, diz.
Durante o trajeto do Curuzu ao Pelourinho, a Caminhada da Liberdade prestará um tributo para Marta Almeida, militante do MNU-PE, que faleceu no último dia 13 de setembro a caminho de uma reunião do Conselho Nacional de Saúde em Brasília, na divisa da Bahia com Goiás, e uma homenagem aos compositores de blocos afro na figura de Gilson Nascimento, autor de “Aos Dezenove Remos”, canção do repertório do Ilê. Também promoverá um momento de reflexão e ação solidária voltada às mães de crianças que convivem com a microcefalia: interessados poderão se dirigir à sede dos blocos afro (ver serviço) para fazer doação de alimentos não perecíveis em troca de uma camisa da caminhada.
“É um problema que atinge parte significativa das mulheres negras, que na maioria das vezes enfrentam o drama da doença sozinha, sem a presença do companheiro. Vamos aproveitar o dia de mobilização para abordar essa questão que também nos aflige”, diz Raimundo Bujão. Está confirmada a presença do professor e psiquiatra Antonio Nery Filho, ex-diretor do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD/UFBA), na saída da manifestação. Ele vai falar sobre microcefalia e conservadorismo no Brasil com relação ao uso do cannabidiol (CBD) no tratamento da doença.
50 Anos de Resistência
No livro Ativismo Negro em Salvador no Período da Ditadura Militar (1970-1980), publicado pela Portuário em 2022, o historiador Andersen Figueirêdo afirma que a criação do Ilê Aiyê por jovens da Liberdade em 1974 “também pode ser vista como uma iniciativa de caráter político”, pois vigorava o período da Ditadura, e nesse momento “a questão do racismo era tabu na esfera pública, sendo que a iniciativa de discussão desse problema poderia acarretar danos, perseguições, patrulhamento ou prisão a quem assim procedesse, pois ações desse tipo eram consideradas como atos subversivos, que se enquadravam na lei de ‘segurança nacional’”.
O jornal A TARDE publicou em 1975 a nota “Bloco racista, nota destoante”, reflexo do reacionarismo então vigente e aceito por uma parcela da sociedade. Figueirêdo ressalta que os blocos afro tiveram nessa época e décadas depois “uma contribuição fundamental na visibilidade da história dos negros, ao assumir a sua identidade através da musicalidade e da sua relação intrínseca com o candomblé”.
SERVIÇO
O quê: 20ª Caminhada da Liberdade, do Curuzu ao Pelourinho, com músicos percussionistas dos blocos afro Ilê Aiyê, Muzenza, Malê Debalê, Cortejo Afro, Os Negões, Ókánbí, ativistas, defensores da causa negra, estudantes e população em geral
Quando: 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra
Onde: Concentração a partir das 13h na sede do Ilê Aiyê (Senzala do Barro Branco)
Como: Acesso gratuito. Quem quiser participar da ação solidária, pode doar alimentos não perecíveis para famílias vítimas da microcefalia em troca de uma camisa da caminhada nas sedes dos blocos Os Negões (Rua da Ordem 3ª do São Francisco) e Ilê Aiyê (Senzala do Barro Preto, Curuzu-Liberdade), Escola de Formação Luiza Mahin (Rua Direita do Santo Antônio, 9 – Santo Antônio Além do Carmo) e Fórum de Entidades Negras da Bahia – FENEBA (Ladeira da Ordem 3ª de São Francisco, 4 – Centro Histórico)
Fonte: Site Política Livre




