Bloco de gelo de 600 metros se desprendeu de geleira e provocou rompimento de lago; nível de rio chegou a subir 9 metros em meia hora. Imagens de satélite mostram área do colapso.
Imagens de 24 e 26 de agosto mostram a área antes e depois do colapso da geleira no Nepal. — Foto: Copernicus/ESA Sentinel-2 e USGS/NASA Landsat 9, processadas pela EOS Data Analytics
O colapso de uma geleira provocou as enchentes catastróficas no Nepal e na China, de acordo com o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos). O desastre já soma mais de 500 mortes e centenas de desaparecidos no que é uma das piores tragédias do país em mais de dez anos.
Novas imagens de satélite cedidas ao g1 mostram a extensão do desastre (confira acima); abaixo, nesta reportagem veja também infográfico que explica como a geleira se formou e como ocorreu a avalanche.
Imagem de 26 de agosto mostra a área após o colapso da geleira no Nepal. — Foto: USGS/NASA Landsat 9, processada pela EOS Data Analytics
O comparativo das imagens de satélite foi feita pelo cientista Robert Rohde, pesquisador da Berkeley Earth, organização independente de pesquisa científica dos Estados Unidos. Ele estima que a área da encosta que cedeu no colapso ocupava cerca de 1 km².
De acordo com especialistas, a geleira tinha cerca de 600 metros de largura. O impacto foi tamanho que o USGS chegou a sinalizar um terremoto de escala 5,2. Na verdade, depois se descobriu que a que o abalo aconteceu por causa da queda do gelo e o deslizamento de rochas.
Esse volume deu início a um efeito cascata no ambiente geográfico acidentado do Nepal, que é cercado por altas montanhas, gelo e passava por uma temporada de chuvas. Isso causou as cenas impressionantes que mostram uma avalanche de lama arrastando tudo: prédios, rochas e pessoas. Até agora, há 1,5 mil pessoas dessaparecidas.
Infográfico explica colapso em geleiras — Foto: INFOGRAFIA: Design g1
Por que tem tanto gelo na região?
Em regiões de altitude muito elevada, a precipitação não cai em forma líquida. Por causa das baixas temperaturas, a chuva se transforma em gelo antes de atingir o solo. Para se ter uma ideia, no monte Everest, que fica na região, em algumas épocas do ano a temperatura pode chegar a -50°C.
Esse acúmulo se repete ano após ano, ao longo de milhares a milhões de anos, formando as geleiras.
Catástrofe no Nepal e Tibete: Banco Mundial anuncia cerca de US$ 163 milhões em assistência emergencial — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Por que esse gelo se desprendeu?
Não há ainda como saber o que causou esse desprendimento de uma massa de gelo tão grande. O que os especialistas explicam é que ainda que sejam massas de água em estado sólido, as geleiras não são estáticas.
“Elas se movimentam naturalmente, seja pela queda de blocos de gelo mais antigo ou deslizamento de camadas de neve mais recente. É um ambiente bastante instável”, explica o geólogo Julio Lana, do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Permafrost e o que aquecimento global?
- Primeiro, o que é isso? O permafrost ajuda a manter algumas encostas de montanhas unidas. Quando ele perde estabilidade, esses ambientes de alta montanha podem ficar mais instáveis. No entanto, ainda é cedo para afirmar que o que houve no Nepal tem relação com a mudança do clima.
Em artigo no The Conversation, Levan Tielidze – pesquisador em geomorfologia glacial na Universidade Monash – lembra que o terreno na região, formado pelo permafrost, pode ter se desestabilizado.
Pesquisas recentes mostram que o calor causado pela mudança do clima vem impactando as geleiras no mundo. E o aquecimento global pode estar fazendo com que o permafrost — solo, sedimento ou rocha que permanece congelado por longos períodos — descongele e se degrade.
No entanto, ainda são necessárias pesquisas para confirmar se esse aquecimento tem relação direta com o que aconteceu.
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E o que houve depois que o gelo se desprendeu?
Esse ponto ainda não está totalmente esclarecido. A hipótese mais provável, segundo o especialista, é a de que o bloco de gelo tenha caído dentro de um lago glacial — reservatórios de água formados ao longo do tempo pelo derretimento parcial das próprias geleiras, comuns nas encostas do Himalaia. (Veja a imagem abaixo)
Lago glacial em geleira no Alasca — Foto: Becky Bohrer/AP Photo
Essas regiões guardam dezenas de lagos desse tipo, alguns com milhares de litros de água acumulada.
Ao cair dentro do lago, o bloco expulsou parte da água represada ali e rompeu as barreiras naturais que a continham — formadas por rochas soltas e sedimentos, e não por rocha maciça. O fenômeno tem nome técnico: GLOF, sigla em inglês para rompimento de lago glacial.
- Para se ter uma ideia de como isso funciona: é como jogar uma pedra em um copo com água que transborda quase que instantaneamente.
“Essa força da água é tanta que empurra esses blocos de rocha que represam a água desses lagos. Eles então vazam e percorrem a região, conectando a outros desses lagos, acumulando um volume alto de água. Isso explica um pouco o volume da avalanche que vimos”, explica o geólogo Julio Lana, do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
O resultado desse acúmulo apareceu na velocidade da cheia: o nível do rio Trishuli subiu até 9 metros em apenas 30 minutos. Um evento que começou a quilômetros de distância, no alto da cordilheira, chegou às áreas habitadas em questão de minutos — sem tempo hábil de reação para quem estava no caminho.
E ainda se soma ao contexto da região: o Nepal passa pela época de monções — período do ano em que a chuva é mais intensa.
Esse tipo de evento não é incomum no Himalaia. Desde 1900, a região já registrou mais de 100 rompimentos de lagos glaciais, resultando em cerca de 7 mil mortes ao longo desse período, segundo estudo publicado em 2022 na revista científica Science of the Total Environment.
O levantamento também mostra que, ao contrário do que se poderia supor, lagos pequenos — historicamente ignorados em avaliações de risco — têm protagonizado uma parcela crescente desses rompimentos desde a década de 1980.
As imagens de satélite do Nepal que mostram o antes e depois das áreas destruídas pela enxurrada — Foto: Planet Labs PBC

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