Foto: Divulgação/Polícia Civil
Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas 02 de dezembro de 2023 | 11:27
Comando Vermelho passou a dominar o Amazonas após derrotar facção local e agora disputa área com PCC
Numa noite de julho de 2017, Adriana Monteiro da Cruz fechava sua barraca de churrasquinho no bairro Novo Aleixo, em Manaus (AM), quando dois homens armados se aproximaram e dispararam tiros contra ela. A vendedora autônoma não resistiu a perfurações no tórax e no abdômen. O Ministério Público do Amazonas apontou que o assassinato foi ordenada por Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas, um dos líderes do Comando Vermelho no Estado. Foi por meio de execuções sumárias, intimidações, motins em presídios e repasses ilegais de dinheiro que a facção ampliou, nos últimos anos, sua presença no Amazonas.
Tio Patinhas é casado, há 11 anos, com Luciane Barbosa Farias, a “dama do tráfico”. O Estadão revelou que ela foi recebida duas vezes vezes no Ministério da Justiça, na condição de presidente de uma ONG bancada pela facção.
Luciane Barbosa se reuniu com dois secretários e dois diretores do Ministério da Justiça em um período de três meses. A revelação levou o órgão a editar às pressas uma portaria mudando as regras de acesso ao Palácio da Justiça, sede da pasta. O prédio fica ao lado do principal acesso ao Congresso Nacional e próximo ao Palácio do Planalto e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O episódio causou desgaste para o ministro Flávio Dino, levando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sair em defesa do auxiliar, e ameaçou a indicação de Dino para o Supremo Tribunal Federal (STF), que se consolidou após a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Senado limitando atuação de ministros da Corte.
Como o Comando Vermelho chegou ao Amazonas
O grupo criminoso chegou a Manaus em 2016. A execução no Novo Aleixo ilustra o avanço da facção no Amazonas de lá para cá. Investigadores da Polícia Civil concluíram que Adriana morreu por engano: o alvo era a irmã dela, Simone Monteiro da Cruz, casada com Francis Olumuyiwa Olufunwa, um dos líderes da Família do Norte (FdN), uma facção que nasceu no interior do Estado.
O crescimento do Comando Vermelho no Amazonas ocorre numa situação de aumento da violência. Em 2022, os Estados da Amazônia Legal registraram uma taxa de homicídio de 26,7 para cada 100 mil habitantes. No País, o índice foi de 19,0 homicídios para cada 100 mil. É tempo ainda de aumento do número de presos.
Os especialistas em segurança pública observam que as cadeias do Norte se tornaram verdadeiros centros de recrutamento para as facções criminosas – da mesma forma que em outras regiões do Brasil.
De 2016, até o primeiro semestre deste ano, a população carcerária na região Norte cresceu 21,9%, mais que a média nacional (18,8%). Hoje, são 63,5 mil encarcerados, sendo 10,6 mil só no Amazonas. Os dados foram compilados pela reportagem do Estadão a partir de informações do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (Sisdepen), mantido pelo Ministério da Justiça.
Guerra com PCC
No começo deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) do Amazonas detalhou a atual da guerra entre CV e PCC no Estado ao pedir a transferência de Patinhas para um presídio federal – o pedido aguarda decisão da Justiça. Segundo documento do órgão, o CV tornou-se dominante a partir de 2020, ao vencer a Família do Norte. Como resposta, pequenos grupos criminosos remanescentes da FdN e recém-surgidos passaram a se aliar ao PCC. Em julho último, a briga entre CV e PCC resultou em dois assassinatos dentro de prisões.
“O PCC está em Manaus, e a chegada dele se deu a partir de um racha (dentro do Comando Vermelho), liderado pelo bandido ‘Cascudo’. Ele não aceitou ser chamado a atenção pelo Conselho (grupo que comanda o CV), e então rompeu com o CV do Amazonas, se aproximou do PCC e levou junto com ele vários outros integrantes que eram do CV ou que já foram da Família do Norte”, afirma o geógrafo Aiala Colares de Oliveira Couto, que é professor da Universidade do Estado do Pará e integra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Tem vários bairros (em Manaus) que hoje estão sob o comando do PCC. Esse racha se deu não tem nem um ano.”
No momento, o líder máximo do CV no Amazonas é o traficante Gelson Carnaúba, conhecido como “Mano G”. Antes de integrar o CV, Carnaúba foi um dos fundadores da Família do Norte. Ele é acusado de comandar uma chacina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, o Compaj, em 2002, quando doze presos foram mortos pelo CV. Os mesmos documentos apreendidos pela Polícia Civil do Amazonas que mostram os pagamentos para a ONG de Luciane Barbosa Farias, revelados pelo Estadão, apontam também remessas para Carnaúba, identificado pelo codinome “Amigo de Longe”.
Como o CV age no Amazonas e as orientações via WhatsApp
Elaborado com informações apreendidas no celular de uma integrante do CV, o relatório da Polícia Civil mostra como é a organização da facção no Amazonas. O grupo é comandado por um “Conselho” – do qual Tio Patinhas faz parte. Foi como membro do “Conselho” que ele teve papel de destaque na guerra contra a Família do Norte, a partir de 2016. Hoje, aguarda preso julgamento do caso pelo tribunal do júri.
O Comando Vermelho no Amazonas conta também com uma espécie de Conselho de Sentença, tribunal do crime, formado pelos líderes do grupo para determinar até penas capitais”, segundo a Polícia Civil. Abaixo do Conselho estão os representantes de cada município ou região de Manaus, chamados de “Geral”.
O “Geral” de determinada localidade é auxiliado por um “Frente”. Os “frentes” coordenam “os trabalhos locais e dirimem conflitos entre seus associados. Também levam as demandas de seus associados para que sejam solucionadas pelo Conselho”. Por fim, cada local tem um tesoureiro, chamado pela facção de “Torre”. “Esses são responsáveis por coletar o dinheiro do que chamam de ‘Caixinha’ (uma espécie de contribuição sindical do crime)”, diz o relatório da Polícia Civil.
André Shalders/Estadão
Fonte: Site Política Livre




