Mais de 1100 pessoas já haviam morrido – entre as quais 700 em Israel e 400 em Gaza – quando teve início, na tarde de domingo, a primeira reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas após o início dos ataques do grupo Hamas. O número não foi suficiente para que os conselheiros emitissem uma só palavra sobre a gravidade do conflito.
Convocada pelo Brasil, que preside neste mês de forma rotativa o conselho, a reunião ocorreu a portas fechadas e durou uma hora e meia. Ninguém poderia, naturalmente, esperar decisões definitivas em um primeiro debate. Mas o total silêncio é eloquente.
O ataque do Hamas ocorreu 50 anos depois da eclosão da Guerra do Yom Kippur, quando Israel sofreu um duro bombardeio de forças árabes, lideradas por Egito e Síria. Além de devastadora, a ação do grupo passou fora do radar dos serviços de inteligência.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, imediatamente condenou “nos mais fortes termos” os ataques iniciados na madrugada de sábado. Mas as declarações parecem ter tido tanto efeito quanto suas advertências ao mundo sobre a emergência climática.
Poucas horas após o início dos bombardeios, o governo de Israel declarou-se oficialmente em guerra. Na manhã de segunda-feira anunciou um bloqueio total à Faixa de Gaza, para deixar a região sem eletricidade, comida ou água. E uma invasão por terra estava nos planos.
Como militantes do Hamas sequestraram centenas de civis israelenses, entre eles idosos e crianças, e os tornaram reféns em Gaza, a invasão por terra de território palestino pelos soldados de Israel pode resultar em um banho de sangue sem precedentes – de civis e militares.
Na verdade, os próximos passos do conflito – que promete ser longo – podem deixar em segundo plano a Guerra da Ucrânia, presença permanente de manchetes de jornais de todo o mundo há mais de um ano.
E então teremos duas guerras simultâneas com enorme capacidade de desequilibrar a já frágil ordem global.
Tudo isso em um cenário pós pandêmico e inflacionário, onde o descontentamento com governos em todo o mundo estimula ondas populistas e ameaça levar ao poder agentes de desestabilização como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina.
Em um cenário radicalizado, volta a ocorrer, após a eclosão do novo conflito, o que já se registrava depois da invasão da Ucrânia pelas forças russas: a polarização dos debates nas redes sociais.
De um lado, a ação surpresa do Hamas – especialmente contra alvos civis – provocou uma grande onda de solidariedade a Israel, tanto por parte de governos ocidentais como por pessoas comuns chocadas com a intensidade da violência.
De outro, como a buscar um imediato contraponto, simpatizantes da causa palestina em todo o mundo passaram a lembrar os sofrimentos impostos por Israel à população de Gaza, que estaria forçada a viver no que chamam de “presídio a céu aberto”.
O confronto de versões é do que extremistas mais gostam, especialmente os mais fascinados pela terra sem lei das redes sociais. Em países como Estados Unidos e Brasil, a proximidade de conservadores religiosos com a causa de Israel tem tudo para contagiar a política interna.
E quem pode deter mais essa marcha da insensatez? Em um mundo ideal, seria a Organização das Nações Unidas. Mais precisamente, seu Conselho de Segurança – composto por cinco membros permanentes, com direito a veto, e dez provisórios.
O silêncio dos integrantes do conselho após a reunião de domingo mostra que o caminho não será nada fácil.
Muitas consultas bilaterais ainda deverão ocorrer antes que se desenhe algum esboço de resposta internacional à nova crise no Oriente Médio. Enquanto isso, centenas de mortes poderão se acumular a cada semana.
Coube ao Brasil, neste mês de outubro, assumir a presidência rotativa do Conselho de Segurança. Um grande desafio, com certeza. E, possivelmente, uma considerável oportunidade.
A diplomacia brasileira estará encarregada de estabelecer a pauta do colegiado – tanto de reuniões fechadas como a de domingo como a de debates abertos já previstos, sobre temas como a participação de mulheres nas decisões globais e ações de prevenção de conflitos.
Até aqui, os conflitos foram difíceis de prever – e, mais ainda, de prevenir. A inoperância do conselho tem motivado críticas inclusive no Brasil, cujo presidente insiste, desde sempre, na ampliação do colegiado, para torná-lo mais representativo e eficaz.
“A ONU de 2023 está longe de ter a mesma credibilidade da ONU de 1945”, disse Luís Inácio Lula da Silva a jornalistas em Angola após reunião do Brics, em agosto, referindo-se ao ano de fundação da organização.
“O Conselho de Segurança, que deveria ser a segurança da paz e da tranquilidade, é o que faz a guerra sem conversar com ninguém”, acusou Lula. “A Rússia vai para a Ucrânia sem discutir no Conselho de Segurança. Os Estados Unidos vão para o Iraque sem discutir no Conselho de Segurança. A França e a Inglaterra vão invadir a Líbia sem passar pelo Conselho de Segurança”.
Ou seja, concluiu o presidente brasileiro, “quem faz a guerra, quem produz e vende armas” são os integrantes do conselho. “Está errado”, observou.
A reforma do Conselho de Segurança está longe de acontecer. E, mesmo que países como o Brasil venham a integrá-lo de forma permanente, dificilmente será revogado o direito a veto dos cinco países que o detêm: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
Dito isso, o mundo vive um momento de crise. E precisa contar com os poucos instrumentos de que dispõe para evitar um cenário assustador.
As armas têm mostrado a dimensão da capacidade destrutiva da humanidade. Chegou a hora de a diplomacia, mesmo longe de seus melhores momentos, indicar que no horizonte ainda pode estar a paz.
Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.




