Foto: Divulgação/BYD
Sede da BYD no distrito de Pingshan, em Shenzhen; à direita, o monotrilho que atende os 30 mil funcionários da instalação 18 de novembro de 2023 | 14:30
Influência cultural na América Latina também é atraente ao conglomerado, que investirá R$ 3 bi em fábrica de elétricos
No início de outubro, Wang Chuanfu, presidente global da BYD, esteve no Brasil e em Camaçari, a 50 quilômetros de Salvador, lançou a pedra fundamental do complexo industrial que o conglomerado fundado por ele instalará no país.
Cerca de dois meses antes, quando a viagem foi programada, a empresa ainda não sabia o destino exato do investimento de R$ 3 bilhões. Sabia apenas que viria para o Brasil e que o endereço seria na Bahia.
A convicção de que o complexo industrial seria colocado de pé, independentemente da solução ao impasse político com a área ocupada pela Ford de 2001 a 2021 e do local exato dá sinais da importância dada pela empresa à estratégia de ganhar mercado no Brasil e, a partir dele, também na América Latina.
Enquanto montadoras europeias e mesmo competidoras asiáticas passaram os últimos anos defendendo a inviabilidade dos elétricos no Brasil, a BYD está convencida de que o país poderá se tornar seu segundo mercado fora da China e o primeiro fora da Ásia, na sequência.
A leitura vem de uma combinação de fatores conjunturais, estruturais e culturais. A matriz energética limpa, o gosto do brasileiro por carro, o tamanho da economia brasileira e sua influência sobre a América Latina e a crescente preocupação com o ambiente estão no centro da estratégia.
O obstáculo para a consolidação do mercado de elétricos no Brasil é, antes de tudo, o preço. O Dolphin, lançado por aqui no primeiro semestre, custa R$ 149,8 mil (e é, atualmente, o elétrico mais vendido no país). Leia aqui o teste de desempenho do carro.
Depois, tem a infraestrutura de carregamento. Além de restrita, precisa se multiplicar para atender as dimensões do Brasil.
A expectativa da BYD é que a consolidação do mercado seja acompanhada pelo aumento da infraestrutura. A empresa também tem cobrado do governo federal um plano de incentivo que chegue também a essa ponta da cadeia.
A Raízen (junção da Shell com a brasileira Cosan), por exemplo, investiu R$ 10 milhões em 2022 na Tupinambá Energia, startup de carregamento. Incorporadoras como a Cyrela (no alto padrão), e a Patriani, no ABC paulista, incluíram carregadores nas garagens de todos os lançamentos recentes.
As empresas com veículos elétricos rodando (Volvo, Volks, BMW e a própria BYD) mantêm centrais de cargas em suas concessionárias em São Paulo, e as companhias de energia também têm investido nessas estruturas.
Nesse aspecto, os defensores do etanol não estão errados: o biocombustível é abundante no Brasil e a infraestrutura já existe.
Para equilibrar o jogo, a BYD também quer produzir no Brasil um híbrido plug-in, o Song Plus, visto como uma alternativa mais atraente para quem usará o carro para viajar e não pode ficar dependente da escassa rede de eletropostos. O híbrido, porém, não usa etanol.
O plano da montadora é ter um híbrido flex produzido no Brasil. Tyler Li, presidente da montadora no Brasil, disse recentemente que engenheiros chineses virão ao Brasil para aprender a trabalhar com o etanol e trocar experiências que conduzam à adoção do combustível que integra o escopo da energia limpa.
A CEO da BYD para as Américas, Stella Li, classificou o híbrido a etanol um “solução verde brasileira”. Vice-presidente global da companhia, Stella afirmou que a empresa deverá levar também brasileiros para a China, onde poderão conhecer in loco as instalações do conglomerado e a operação de suas fábricas.
Os executivos do grupo têm repetido a intenção de transformar Salvador em um “Vale do Silício”, em alusão à região da Califórnia onde estão as principais empresas de tecnologia e inovação.
“Vamos abrir um programa de treinamento para as pessoas que trabalham para a BYD Brasil, para que venham a Shenzhen abrir os olhos para o futuro”, disse Stella à Folha, em entrevista concedida no complexo da BYD no sudeste da China.
Para a empresa chinesa, é questão de tempo até o carro elétrico ganhar mercado —e ela pretende ser a líder do segmento também por aqui. Em seu país de origem, é a maior em todos os segmentos (elétricos ou não) e ultrapassou a americana Tesla entre os elétricos.
Em 2022, foram vendidos 1,86 milhão de veículos de energia limpa (elétricos e híbridos), uma alta de 152,5% na comparação anual. Somadas todas as operações —carros, ônibus, trens, baterias e placas solares e componentes eletrônicos—, foram US$ 61,7 bilhões em receitas, um crescimento de 56% ante 2021.
Em julho de 2023, a BYD vendeu 262 mil veículos leves de energia limpa em todos os mercados em que atua. Em um mundo cada vez mais preocupado com as mudanças climáticas, a BYD corre para sair na frente.
O tamanho do mercado chinês permitiu a empresa encerrar, em 2022, a produção de carros a combustão (e eles já não existem mais em estoque) no país, onde hoje fica 90% de seu mercado consumidor.
Fernanda Brigatti, Folhapress
Fonte: Site Política Livre



